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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Pórtico

Contava-me uma mãe a surpresa que fizera ao filho aquando do seu aniversário. Houve durante algum tempo algumas pistas que foram dadas ao menino, acerca desta surpresa, mas ele nunca chegou perto do que poderia ser. Chegou até a dizer-se que, dadas as dificuldades, este ano não poderia ter uma festa de anos como estava habituado. Em casa com os amigos. Contudo a promessa de que iria ter um presente inesquecível ainda estava de pé. Chegado o dia do aniversário, a mãe acordou o pequeno a meio da noite. “Às três da manhã”, dizia. Acordado de rompante, não percebeu nada do que estava a acontecer. Queria voltar a dormir. Mas quando a mãe disse: a tua surpresa começa agora, a criança arregalou os olhos e deu um salto da cama. “Vamos, levanta-te, temos que ir” disse a mãe com ternura. Foram até ao aeroporto. Tinham um avião para apanhar. Destino: Paris. O rebento só percebeu que um sonho seu estava prestes a concretizar-se quando leu num pórtico: EuroDisney.
Deu pulos de alegria. Era o pórtico da esperança, do sonho, da vida. Estava profundamente agradecido.


A fé é isto. Quanta fé tinha o filho nos seus pais. Quanta confiança. Quando há relação. Quando há amor. Esta história dá que pensar.  No fundo revela-nos como se é no reino dos céus. “Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” Mt 18, 3. Acordou do seu sono. Acordou para a vida. O amor alterou os seu planos. Afinal de contas não poderia comemorar o seu aniversário como de costume. Era a visão possível da sua felicidade. A terra prometida esperava-o. A melhor está sempre em devir. A voz da sua referencia de amor chamara-o. “Levanta-te!” Sem mais perguntas correspondeu ao apelo. “Seguir-te-ei para onde quer que vás”Lc 9, 57. Confiarmo-nos ao Santo e todo poderoso em Amor, é fazermos a experiência de chegarmos ao pórtico da vida eterna. Participar na vida de Deus. Desde já. A fé leva-nos ao pórtico da esperança, do sonho, da vida. Entremos. Assim como o menino entrou pela mão de sua mãe, pela EuroDisney dentro. Imagina-se só o que aconteceu depois...

terça-feira, 9 de outubro de 2012

i/maturidade

O Senhor imaniza-nos sempre para a maturidade. E o que nos custa, o que dói, o que porventura nos faz sofrer, o que provavelmente não conseguimos digerir, deve-se à nossa ainda imaturidade. É o grito natal. Sinal de vida, onde curiosamente, quanto mais maduros, mais felizes, mais criadores, mais Humanos, mais Deus, somos. A Verdade não se contradiz. A chave capta-se em Cristo, onde “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência.” (Cl 2, 3), o principio e o fim da razão. Método humano que nos leva por nós mesmos a atingir um pedaço da Verdade, do que é mistério, do que é do âmbito da fé. Mas eis que a fé é também conhecimento. A fé é o estado esclarecido da razão. Assim, nesta experiência anfíbia entre fé e razão podemos nós encontrar meios para nos divinizarmos. Tornarmo-nos no próprio Deus. Sim. Tornarmo-nos no próprio Deus. Não se trata de sermos Deus, mas de nos tornarmos cada vez mais semelhantes a Ele.


Da passagem do nada à vida, fazemos a nossa primeira experiência de transmaturidade. Daí em diante, toda a vida é processo de maturação. Amadurecer é tornarmo-nos no próprio Deus. Tornarmo-nos no próprio Deus é amarmos cada vez mais como Deus ama. Esta é se quisermos a grande recompensa das bem-aventuranças. “Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5, 12). A grande recompensa prometida a cada hora por Jesus, o Cristo, não é se não amar como Deus ama. Amar como Deus ama é perdoar como Deus perdoa, é gerar vida como Deus gera, é apagar-se para que outro ser possa Ser.
Deixar-se amadurecer é querer existir.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Fé

Na verdade a Fé só faz sentido quando ela é erudita, culta e acompanha em simultâneo o crescimento de todas as outras dimensões da vida. Ao invés, tentar vestir agora o “fato das motivações e razões de Fé” de quando éramos crianças, agora que já não somos crianças, não cola, não cabe, não faz sentido. Pelo que, se interessados pelo “além nós, humanos e toda a criação”, e antes de qualquer teoria religiosa, só num dinamismo de relação onde haja lugar para um Eu e um Tu, é que se fica disponível para crescer no âmbito da experiencia espiritual de Deus.

Após esta premissa, tudo se constrói a pouco e pouco, se em liberdade, sem estar a medo e a preconceito, reconhecendo nem que seja que somos finitos mas que a realidade e a existência não é toda ela finita. É este o salto da Fé. Crer. Que pressupõe assinar um cheque em branco. Confiar. E são tantas as coisas na vida nas quais aplicamos este salto, muitas vezes sem nos darmos conta. Por exemplo, quando comemos uma refeição que alguém de quem gostamos nos preparou, como sabemos que não está envenenada? Nem nos questionamos, pois é intrínseca a confiança. Comemos e pronto. Está nas entrelinhas da relação estabelecida um trato de que cremos que aquela pessoa nos quer Bem.



Curiosamente, conceituarmo-nos ateus “acaba por ser um conceito contraditório porque a negação só existe porque existe também o seu contrário, ou por outras palavras, o não só existe porque também existe o sim.” Por seu turno ser agnóstico é já por si meio caminho para ser crente, o que não deixa de ser curioso pois coloca-o numa dimensão volante, a caminho…do mais, da harmonia plena, no fundo, de Deus, ainda que nem sempre se reconheça que é Ele.

Fé é pois sustento. Que tem conteúdo na crença e que ganha forma nas “razões da Fé” que carecem a todo o momento de renovação. A fé inclui também por isso um processo racional que justifique e faça de palco para o conteúdo espiritual do crer. No fundo tudo é simples. Basta sabermo-nos à partida amados por Deus, revelado por Cristo como sendo uma só coisa. Amor. Deus não pode se não amar. Na aventura desta relação apenas podemos esperar por isso que Deus nos ame. Cabe-nos a nós aprendermos a deixarmo-nos amar e crescer neste feed-back de amor, confiantes que nos eleva às coisas do alto, e faz-nos superar a nós mesmos. E até para isto é preciso Fé.