segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Imagem e Semelhança

Gostaria Senhor de falar da Tua grandeza, de forma simples, sem pertença, sem ferir o que és. Mais fácil seria dizer o que não és. Porque tu não és senão Amor. O mistério maior do tudo que ao mesmo tempo é nada. Amor infinito, que “apenas” cria liberdades. Liberdades capazes de se criarem a si mesmas. A Tua felicidade é não teres espelho, pois não te contemplas a Ti mesmo. Não tens retorno e não o pretendes em nada do que crias, pois a Tua substância é dádiva e não receptividade.

Não obstante, toda a criatura vem de Ti, e se para Ti voltar cumprirá o seu fim, por via da sua liberdade. Deixando-nos envolver no Teu Amor, tornamo-nos no que és. Assim, toda a criatura realiza a plenitude da sua existência na medida em que se divinizar. É um necessário inalcançável. Mas necessário.


E porque é necessário saber o que és? Porque para ser a Tua imagem e semelhança é preciso conhecer-Te. Recolhendo-nos profundamente, descobrimos que no fundo de nós não há um eu mas um tu. Enquanto houver interesse próprio distanciamo-nos daquilo que Tu és. Estamos em comunhão conTigo quando nos esquecemos de nós, do nosso próprio interesse. Aí, o centro está fora de nós. Somos Tua imagem e semelhança. Fazemos a experiência da Tua própria felicidade.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Do Amor à Esperança

Ora, na verdade, há experiências que realizam mais do que outras é certo. Mas, com verdade, pondo os olhos na nossa realidade, podemos abraça-la com amor. Seja como for. Ainda que não seja nada óbvio. E não é nada óbvio! Assim como também não é nada óbvio abraçar uma cruz com amor. Isto dá que pensar! Temos a prova de alguém que sendo como nós, teve a Sua realização plena pregado numa cruz. E foi daí que brotou vida. Dá-se a ressurreição e nasce tão simplesmente a igreja, da qual temos o privilégio de ter chegado até nós… veja-se bem, quanta esperança põe Deus na fragilidade, no que é pobre, no que é precário…




Hoje de manhã vinha a ouvir uma música que dizia: “Vou-te mostrar que as árvores riem pra ti, Vou-te mostrar que as estrelas dão sinais de si, Vou-te mostrar que o sol te aquece e te abraça, E que tudo não passa do saber viver e contemplar”. Acho que é isto a esperança. Por um sorriso na cruz. É o amor que vence a morte e não o contrário. A morte e todas as mortes em nós, do que é tristeza ao que é frustração, do que é tibieza ao que é egoísmo. E a música continuava “olha à Tua volta e pensa em Deus, Aquele que deu tudo e tudo aos seus, Entrega-lhe o teu estar  o teu olhar, E sem o reparares Ele vai-te abraçar, Vai-te ajudar”.. É isto! Tudo não passa do saber viver e contemplar. Se virmos bem à nossa volta há já tanto de premissas do reino pleno de Deus, perto do dia em que Ele será tudo em todos! Hás-de reparar… é daqui nasce a esperança.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Correr bem / Correr mal


Correr bem ou correr mal. O que acontece, é bom ou é mau? Curiosamente, acho que esta adjectivação somos nós que a fazemos. Tudo depende se vai de encontro com a nossa vontade/necessidade ou não. É a bitola que usamos. Todavia, o que para uns é mau, para outros é experiência de edificação, de liberdade, de céu. Ao invés, o que para uns é bom, para outros é uma experiência de desintegração, divisão, de inferno. A questão expõe-se portanto subjectivamente, porque objectivamente nada é bom ou mau. Tudo depende como nos colocamos perante o que acontece.


Deus “não está” nas coisas. Quanto muito está ”por dentro das coisas”. Não faz por isso sentido dizer: “como é que Deus deixou que isto acontecesse?”. Assim estamos a coloca-lO fora do acontecimento e Ele não está fora, não está no acontecimento em si, mas sim por dentro dele. Não é vontade de Deus que aconteça isto ou aquilo, como se de um titeriteiro se tratasse. Não opta entre que hoje chova e amanhã faça sol. Deus intervém, mas não interfere. É um mistério. Mistério, não por ser incompreensível mas por ser de infinito conhecimento não atingível no seu todo por nós. Não se esgota. É uma bela razão para não acreditar, pois desejaríamos muito mais que Deus fosse feito à nossa medida do que termos que ser nós a fazermo-nos à medida d´Ele. Preferíamos quase que vender a nossa liberdade para que Ele tudo fizesse por nós. E faz! Mas faz pelos máximos, e não pelos mínimos.

Por opção, nada pode contra a nossa liberdade. É a expressão máxima do Amor. Se quisermos, podemos negá-lO inclusivamente. E quanto a isto o todo poderoso em Amor, por opção, nada pode fazer. Assim, a vontade de Deus para cada um não está no que lhe acontece ou deixa de acontecer, mas sim no modo como agimos a partir da nossa liberdade. E aí, a vontade de Deus é que sejamos outro Cristo. Sejamos a Sua imagem e semelhança, e isso nos libertará.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Para-bens


O dom da vida. Acho que a vida é isto mesmo, um dom que nos é dado, com o propósito de com ele nos direccionarmos para o Bem. Para-os-bens. Não pelos bens em si mesmos, como se o que é material fosse o fim ultimo da nossa existência. Não nos esgotamos na matéria mas antes nos prolongamos nela e através dela.
A vida. Para-os-bens, de tudo quanto nos relacionamos. Um dom que nos é confiado para dele desfrutarmos e crescermos em dádiva, à imagem e semelhança do próprio Deus que é todo poderoso em Amor. Em dar-se por inteiro. A vida é uma oportunidade. Oport-unidade. Dever-de-unidade. O mesmo é dizer que a vida é para o Bem. Só o Bem nos une de fundo. Só o Bem nos coloca em comunhão. Comum-união. A partir daqui podemos ser verdadeiramente chamados filhos do Altíssimo. A vida é um lugar de beleza. Ressoam as palavras do Papa Bento aquando da sua visita a Portugal: “"Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas em lugares de beleza…Vivei a vossa vida com alegria e entusiasmo, certos da Sua presença e da sua amizade gratuita, generosa, fiel até à morte de cruz. Testemunhai a alegria desta sua presença forte e suave a todos, a começar pelos vossos conterrâneos. Dizei-lhes que é belo ser amigo de Jesus e que vale a pena segui-Lo. Com o vosso entusiasmo, mostrai que, entre tantos modos de viver que hoje o mundo parece oferecer-nos – todos aparentemente do mesmo nível –, só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentido da vida e, consequentemente, a alegria verdadeira e duradoura.”

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Filhos do Pai


É-se filho porque se tem um pai. Não há pai sem filho e nem filho sem pai. Imagine-se o filho, que tem o pai por referência. Concordo com o Pe. Alberto Brito (sj) que diz que “o filho não obedece ao “pai”, imita-o”, e ainda que assim seja, acaba sempre por admirá-lo. Depende do pai. É ele que o educa, que o sustenta, que o vê crescer. Ainda que o pai seja mau sabe dar coisas boas ao seu filho, quanto mais o Pai do céu o fará com os seus.


Veja-se a dignidade que se nos é conferida ao podermo-nos chamar de filhos de Deus! Ser filho de Deus é ser filho da eternidade. É ser filho do Amor. É ser filho do infinito ainda que finitos sejamos. Podemos não obedecer sempre à vontade do Pai, mas reconhecemos nela o sentido profundo da nossa vida. Ele é que sabe. Podemos não obedecer sempre à vontade do Pai, mas sabemos que só esta nos faz crescer, amadurecer, em” sabedoria, estatura e em Graça”. É a sabedoria plena, porque é do Alto, porque é a origem da Graça. Ele é o único que É, total e inteiramente.

A Humildade é a Verdade. Nestas somos invadidos pelos dons do Espírito Santo, pelo próprio Deus, que, depois de esvaziados de nós mesmos, entrará por nós dentro e tudo renova. E é o próprio Deus, o próprio Cristo, que nos diz quem somos e nos lança nesta novidade revestida de profundo sentido da nossa existência: “Quando orardes dizei: Pai Nosso, que estás no céu…”. Obedecer ao Pai é imitá-Lo. Por Cristo, Com Cristo, em Cristo. Sermos filhos no Filho, e aí, tudo faz sentido.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Fazer tudo por Amor

Não poucas vezes, quando estamos perante alguém a quem devemos consideração, esforçamo-nos por dar o melhor de nós como que para confirmar o ascendente que tem sobre nós. E se esse alguém for o próprio Deus? Sugiro para esta semana a temática do trabalho (no/para Reino):

“Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração como para o Senhor e não para homens” (Colossenses 3:23 S. Paulo); e ainda “Servos, obedecei a vosso senhor … na sinceridade do vosso coração, como a Cristo, não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus; servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homens, certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre” (Efésios 6:5-8 S. Paulo).

Assim, tudo o que fazemos, fazemo-lo para o Pai. O Senhor quer-nos Santos onde estamos. Com as condições que temos. Pelas mais diversas razões que nos levaram a chegar onde nos encontramos. Assim, cada conversa, cada cliente, cada fornecedor, cada mail enviado, cada mensagem, cada leitura, cada situação, seja revestida da noção plena que o Senhor deposita em nós a confiança de co-criadores. Acompanhados de todo, pelo Amor que recebemos descido do céu a habitar no meio de nós, Jesus, pelo poder re-criador do Espírito prometido a cada hora, o Espírito Santo. Co-criadores deste mundo, que ainda não está acabado. Assim a nossa profissão seja meio de santificação. Santificarmo-nos para santificar tudo à nossa volta. Fazer tudo por Amor.

Fazei tudo por Amor. – Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. – A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo (Caminho, n. 813 José Maria Escrivá).

terça-feira, 22 de maio de 2012

Crescer

Quero estar a Teu lado. Quero permanecer em Ti. Custe o que custar. Tenho que permanecer em Ti. Permanecer apaixonado. Por Ti. Aguardar com confiança, a partir do salto da fé. Aguardar a promessa do Teu filho de que permanecendo no Seu amor, darei muito fruto. Esperar que cresça. Ainda que olhássemos a todo o instante para uma árvore não a víamos crescer nem um milímetro. No entanto, ela cresce. Como que em segredo. Mas cresce!

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Trabalho

"O Homem nasceu para trabalhar, assim como as aves para voar" (Job) Que desafio este de fazermos a experiência de nos sabermos co-colaboradores na continuação da Criação. Desafio que me parece ser tão minucioso quanto as tarefas profissionais que temos que fazer. Num primeiro momento demonstra-se-me ousada esta visão. Ter presente que ao desenvolvermos as nossas responsabilidades profissionais estamos a transformar o mundo. Estamos a dar-lhe alguma coisa de que necessitava e ainda não tinha. Depois, vem o sentido de missão que a cada um cabe perceber qual é. Aí fazemos o que sempre fizemos com um sentido maior. Com quem trabalhamos, formamos uma comunidade. Heterogenia em si mesma, formamos a igreja dos profissionais. E até mesmo nos trabalhos mais recondidos, aqueles que se fazem nos bastidores, aí olhamos para a nossa Mãe, e aprendemos dela o serviço na simplicidade, mesmo que em segredo, mesmo que não se saiba do processo que levou ao resultado, ainda que por fim o mundo tenha ficado um pouco mais completo, ainda que porventura ninguém tenha dado por isso. É assim o trabalho...

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Fé

Na verdade a Fé só faz sentido quando ela é erudita, culta e acompanha em simultâneo o crescimento de todas as outras dimensões da vida. Ao invés, tentar vestir agora o “fato das motivações e razões de Fé” de quando éramos crianças, agora que já não somos crianças, não cola, não cabe, não faz sentido. Pelo que, se interessados pelo “além nós, humanos e toda a criação”, e antes de qualquer teoria religiosa, só num dinamismo de relação onde haja lugar para um Eu e um Tu, é que se fica disponível para crescer no âmbito da experiencia espiritual de Deus.

Após esta premissa, tudo se constrói a pouco e pouco, se em liberdade, sem estar a medo e a preconceito, reconhecendo nem que seja que somos finitos mas que a realidade e a existência não é toda ela finita. É este o salto da Fé. Crer. Que pressupõe assinar um cheque em branco. Confiar. E são tantas as coisas na vida nas quais aplicamos este salto, muitas vezes sem nos darmos conta. Por exemplo, quando comemos uma refeição que alguém de quem gostamos nos preparou, como sabemos que não está envenenada? Nem nos questionamos, pois é intrínseca a confiança. Comemos e pronto. Está nas entrelinhas da relação estabelecida um trato de que cremos que aquela pessoa nos quer Bem.



Curiosamente, conceituarmo-nos ateus “acaba por ser um conceito contraditório porque a negação só existe porque existe também o seu contrário, ou por outras palavras, o não só existe porque também existe o sim.” Por seu turno ser agnóstico é já por si meio caminho para ser crente, o que não deixa de ser curioso pois coloca-o numa dimensão volante, a caminho…do mais, da harmonia plena, no fundo, de Deus, ainda que nem sempre se reconheça que é Ele.

Fé é pois sustento. Que tem conteúdo na crença e que ganha forma nas “razões da Fé” que carecem a todo o momento de renovação. A fé inclui também por isso um processo racional que justifique e faça de palco para o conteúdo espiritual do crer. No fundo tudo é simples. Basta sabermo-nos à partida amados por Deus, revelado por Cristo como sendo uma só coisa. Amor. Deus não pode se não amar. Na aventura desta relação apenas podemos esperar por isso que Deus nos ame. Cabe-nos a nós aprendermos a deixarmo-nos amar e crescer neste feed-back de amor, confiantes que nos eleva às coisas do alto, e faz-nos superar a nós mesmos. E até para isto é preciso Fé.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Portas do céu


Tudo é Reino. Todo o lugar é lugar para aumentar o Reino.
Que seremos nós, se não portas do Reino? Que responsabilidade será a nossa se não a de ser porta do céu? Sê-lo “com Maria, em Cristo, ao Pai.” Com esta dinâmica tudo ganha sentido, tudo é novo porque renovado nesta certeza, na certeza que é por si só a novidade que não caduca, que é um ciclo cheio de virtude. Ser porta do reino é ser mediador ligado do Reino, ao Reino. Ser outro Cristo, porta para o Pai. Ser com Maria, a seta que aponta para o céu.

“O reino de Deus está próximo”. Experimentamo-lo, desde já, ainda que a caminho da eternidade, sempre que esperançados, sempre que alegres, sempre que co-redentores acompanhados por Cristo nesta missão que Ele próprio começou, missão que é só uma, que é d´Ele, que é também nossa. Alegres porque na nossa “pequenez se detiveram Seus olhos”. O Pai faz o apelo, quer “Ser tudo em todos” tal como somos, a partir do que somos.

É bela esta imagem de ser porta do céu. Ainda que frágil, por vezes perra, e tantas vezes opaca, incompleta, carente, mas que vai sendo canal do Pai e para o Pai. Para a felicidade. Para a eternidade. É uma grande responsabilidade, que não deixa de ser acompanhada em graça pelo Espírito Santo, quando invocado, quando solicitado em verdade de coração, “Ele sopra onde quer” e quando quer, diria. Estar por isso atento, reconhecer os sinais da sua presença que sempre nos procura e nos deseja, onde estivermos, fazendo o que tivermos que fazer. Fazer tudo como se todos o fizessem. Experimentar desde já as delicias do céu. Fazer do “ordinário” o “extraordinário”. Fazer da rotina uma rotina de Deus. Aprender a amar. Amar. Ser porta do céu.